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Edifício icônico de SP sofre com problemas estruturais

Um dos edifícios mais icônicos de São Paulo enfrenta infiltrações, fungos, danos na armadura de sustentação e até intervenções irregulares na fachada; com obra parada, condomínio tem menos de um mês para apresentar plano de ação

Há mais de 50 anos as curvas do edifício Copan se destacam na paisagem da Avenida Ipiranga. A fachada sinuosa segue inspirando camisetas, canetas e logomarcas como símbolo de São Paulo, embora sofra com problemas estruturais que vão de danos na armadura de sustentação a fungos, infiltração, fissuras e queda de revestimento, entre outros. Relatórios a que o Estado teve acesso apontam que o edifício, projetado por Oscar Niemeyer, precisa de obras emergenciais para garantir a segurança dos frequentadores e moradores.

A situação começou a chamar a atenção após uma pastilha da fachada cair e atingir um cachorro em 2009, o que originou um pedido de intervenção, que hoje acumula centenas de páginas, divididas em apostilas e mais duas caixas com materiais anexos. O pedido se referia especialmente à colocação de uma tela, que envolve o imóvel há sete anos, mas perdura principalmente pela falta de apresentação de um projeto de restauro completo.

Em 2015, o condomínio começou a retirada das pastilhas, obra que foi embargada pela Prefeitura. Com isso, as duas empenas ficaram expostas. Após 11 anos de processo, órgãos de patrimônio determinaram na última segunda-feira, 30, que um plano de ação seja apresentado por representantes do Copan até o fim deste mês. O síndico promete que as obras começarão em breve.

Relatórios sobre as condições do edifício foram contratados e apresentados aos órgãos municipais de preservação por uma empresa de engenharia, em 2013, e neste ano pela arquiteta Valéria Bonfim. Eles apontam os mesmos problemas, embora a degradação tenha aumentado. Um dos pontos destacados é o das deficiências nas juntas de dilatação que unem a estrutura e que, quando se movimentam, desprendem parte da argamassa.PUBLICIDADEO mapa de danos feito por Valéria aponta "manifestações patológicas que se espalham em um avançado estágio de degradação física" e descreve 12 problemas: descolamento das pastilhas, queda do revestimento, lacuna no revestimento, fissuras, infiltração, corrosão dos elementos metálicos, sujidade, crosta negra (acúmulo de sujeira após sofrer reações químicas), colonização biológica e adição de elementos intrusivos (descaracterização).

O relatório explica que falhas nos rejuntes permitem a entrada de água, causando a perda da aderência das pastilhas, que caem. Ao mesmo tempo, a infiltração se espalha por baixo do revestimento, causando fissuras e permitindo a entrada de elementos agressores, que também aceleram a corrosão.

Por fim, essa situação começa a causar a expansão da armadura metálica, que acaba expulsando o concreto e ficando exposta, "tal como uma fratura, que, se não cuidada, continuará perdendo seção até que não tenha mais função estrutural". "Logo, se as causas das manifestações patológicas não forem sanadas, o edifício poderá correr risco estrutural, comprometendo a segurança dos usuários e a memória do patrimônio", diz o relatório da arquiteta.

Para Valéria, que estudou o Copan em sua tese de mestrado e depois foi chamada para intermediar a situação do condomínio junto ao Município, a degradação se deve ao envelhecimento dos materiais e à falta de manutenção. Ela pontua que, durante décadas, persistiu a ideia de que a arquitetura moderna era "indestrutível". "Se não se tomar ações corretas, a gente vai perder esse patrimônio."

Para ela, a indicação de retirar todas pastilhas da fachada foi inadequada, pois parte ainda estava com boa fixação. "O Copan está na UTI, estamos tentando fazer com que sobreviva. Acho que vamos conseguir", diz. "Mas a questão é que tudo está deixando de ser um problema estético e passando a ser um problema estrutural, que pode levar ao colapso."

Dentre as intervenções necessárias, Valéria considera a mais urgente a recuperação das empenas. "O problema de infiltração já chegou nos apartamentos", comenta. "Se isso não for tratado logo, vai começar a causar sérios problemas estruturais. Ali, está só no cimento, não tem pastilha."

A segunda prioridade seria tratar a armadura. "Tem algumas que não existem mais, é como se tivesse morrido, virou só uma pilha de ferrugem". Por isso, é preciso identificar se é necessário utilizar outras barras de aço e recompor o concreto.

O processo ao qual o Estado teve acesso contém ofícios, atas, fotografias e levantamentos técnicos. O arquivo traz o que o condomínio defendeu por anos como solução: a troca das pastilhas originais por outras de vidro chinesa brilhosas, que são mais baratas. As peças foram vetadas pelos órgãos de patrimônio, que pedem versões de cerâmica fosca e lisa, mais próximas das originais, de porcelana, cuja fabricante ainda está em funcionamento.

Proprietários trocam cobogós por janelas, concreto, tijolos e até vidro colorido

Além da falta de manutenção, intervenções nas fachadas dos apartamentos, especialmente os dos fundos, têm trocado cobogós, caixilhos (onde ficam as janelas) e outros elementos característicos do projeto de Niemeyer por tijolos, concreto e até vidros de cores variadas. Há casos em que as áreas de serviço praticamente viraram varandas gourmet, embora o prédio seja tombado na esfera municipal. A descaracterização praticada por proprietários é apontada por órgãos de patrimônio há pelo menos três anos e alvo de uma denúncia protocolada na Prefeitura em fevereiro.

Sobre as descaracterizações, a arquiteta Valéria Bonfim diz que não há registros de quando começaram. A arquiteta comenta que as alterações estão associadas às mudanças nas formas de moradia nas últimas décadas, em que áreas de serviço grandes não são mais tão necessárias. "Começaram a dar novos usos, analisaram do ponto de vista interno e esqueceram que estão dentro de um patrimônio tombado."

Com uma reunião condominial por ano, os moradores têm poucas informações sobre a situação. Também não há a orientação sobre quais intervenções podem ser feitas na área externa dos apartamentos.

"A questão da tela, eu gostaria que tivesse sem, mas não é uma coisa que me incomoda muito no dia a dia. O Copan merece uma restauração, porque é um prédio icônico da cidade", diz Milena Gomes, 41 anos, que mora e tem comércio no edifício. "Acho que tem certa demora, um descaso, mas já ouvi falar também que tem muitos conflitos."

Também morador, o artista Mateus Capelo, de 35 anos, foi à penúltima reunião do conselho municipal de patrimônio para "poder exigir soluções" e acredita que o diálogo entre as partes "melhorou". "Há muitas histórias em torno da reforma, muita nebulosidade."

Síndico afirma que restauro começará em breve

Síndico do Copan desde 1993, Affonso Celso Prazeres de Oliveira, de 80 anos, garante que atenderá o plano de ação requerido pelos órgãos de patrimônio ainda neste mês. A seleção do responsável por elaborar o projeto será feita com o auxílio de dois arquitetos. "Assim que apresentar o projeto e ele for aprovado, vamos começar imediatamente (a obra)."

Ao Estado, declarou que os conflitos com os órgãos de patrimônio estão "superados" e que a nova proposta vai abranger todas as fachadas e terá pastilhas de cerâmica. Disse, ainda, que sempre "atendeu a tudo que havia sido solicitado".

O síndico afirma ter parte do orçamento necessário para o restauro, embora não revele o valor. E diz que planeja ir atrás de apoio privado. "Temos recurso razoável, dá para iniciar. Acredito que, ao longo do processo, vão surgir interessados", comenta. O valor não abarcaria as fachadas descaracterizadas, que, segundo Affonso, terão a recuperação feita pelos proprietários, que já foram notificados pela conduta.

Seu Affonso, como é chamado, garante que o Copan é seguro e que um produto químico aplicado em 2016 atenua a degradação. Ele concorda com o tombamento no edifício, embora diga que isso "pesa muito" sobre o condomínio e que o custo é o "maior problema".

O professor aposentado de Arquitetura da USP, José Eduardo de Assis Lefévre acompanhou parte do processo quando foi presidente do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp), função que deixou em 2013. Ele considera que o papel do poder público nessa situação é de negociação, pois uma eventual multa poderia atrasar ainda mais o início das obras de recuperação.

"É um prédio muito importante para a história da arquitetura brasileira, da arquitetura moderna, uma marca quase registrada de São Paulo e da carreira do Niemeyer. Tem uma importância muito grande na paisagem, não fica escondido no meio de outros."

Lefévre lembra que o Copan passou por um processo de desvalorização nos anos 70 e 80, fenômeno que atingiu a maioria dos edifícios da região central após ela deixar de ser o principal eixo financeiro de São Paulo. "O síndico teve uma atuação positiva no sentido de recuperação, mas, nesse caso do restauro, teve uma atuação lastimável. Um prédio dessa importância tem de atender às demandas dos órgãos de preservação", afirma.

Em nota, a Prefeitura disse que aguarda a apresentação do projeto completo de restauro para "análise em atendimento às diretrizes estabelecidas pelo Conpresp". O texto cita o prazo de 30 dias para o plano de ação e lembra que, embora aberto em 2011, o processo recebeu documentação com prospecção, identificação de patologias e "alguma solução para os problemas apontados nos laudos" apenas neste ano. "Ainda assim, este documento não considerava a fachada posterior e não seguia os procedimentos necessários para aprovação."

'Foi uma exceção na sua época', diz arquiteto que colaborou no projeto do Copan

O Copan começou a ser construído em 1952, quando Niemeyer já era um arquiteto renomado. O nome é uma sigla para Companhia Pan-Americana de Hotéis e Turismo, cuja proposta inicial incluía um hotel. O prédio começou a ser habitado em 1966, mas a obra foi totalmente concluída seis anos depois. Com cerca de 115 metros de altura, tem 38 pavimentos, dos quais 32 reúnem 1.160 apartamentos.

O arquiteto Carlos Alberto Siqueira Lemos assina como colaborador no projeto do Copan. Ex-diretor do escritório paulistano de Niemeyer e professor aposentado da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP), respondeu a três perguntas enviadas pelo Estado por e-mail. Confira abaixo:

O que o Copan representa para a arquitetura paulista e brasileira? O que ele tem de diferente em relação ao que se fazia na época e ao que se faz hoje?

Tendo em vista a arquitetura moderna brasileira e a paulistana, o edificio Copan foi uma exceção na sua época, década de 1950, devido tanto ao seu programa de necessidades, quanto ao seu tamanho e a sua forma de "s", que resultou da sinuosidade das divisas posteriores do terreno. No entanto, teve um precedente paulistano, o edifício Martinelli, cuja arquitetura foi inspirada nos arranha-céus norte-americanos da década de 1920. Ambos tiveram programas semelhantes e bastante diversificados, satisfazendo necessidades habitacionais, comércio e diversões numa só construção. Outro exemplo, seguindo esta tendência de multiplos usos numa mesma edificação, foi o Conjunto Nacional, que seria construído alguns anos mais tarde na Avenida Paulista.

O edifício está com uma série de problemas estruturais e de descaracterização. Como o senhor avalia essa situação? O que deveria ser feito?

Desconheço a existência de problemas estruturais no gigantesco edificio. O que há de mais grave é a queda das pastilhas dos revestimentos das fachadas, que constituem assunto de difícil solução perante a Prefeitura Municipal de São Paulo, que nunca chega a um acordo com o condomínio. No meu entender, a solução apresentada pelo síndico do prédio, de substituição das pastilhas originais por outras semelhantes, porém, vitrificadas, não ocasionariam impacto visual perceptível em função da distância de observação e das dimensões avantajadas da edificação. Não há mal nenhum que o edifício resplandeça sobre o sol.

A região da República está em um momento de revalorização, com novos espaços culturais e gastronômicos. O Copan está seguindo essa tendência?

Sim. Já possui bons restaurantes e seus espaços vazios em cima das sobrelojas estão sendo paulatinamente ocupados por galerias de arte e espaços culturais.
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